Peter Lund

Nascido em Copenhague, Peter Wilhelm Lund (1801-1880) era filho de ricos comerciantes de lã. Bacharel em Letras, aos 17 anos começou a cursar medicina, interesse que logo se expandiu para a zoologia e a botânica. Em 1825, veio para o Brasil e se fixou numa aldeia de pescadores do litoral fluminense, estudando o comportamento das formigas e os ovos dos moluscos. Depois de mostrar suas descobertas na Europa, ele retornou ao Brasil, em 1833, em companhia do colega L. Ridel, desta vez para ficar. Consta que se mudou para o Brasil fugindo do clima nórdico, temeroso da tuberculose que vitimara dois irmãos.

No ano seguinte, numa excursão botânica a Minas Gerais, Lund e Riedel tomaram conhecimento, casualmente, da existência de grandes ossos em cavernas calcárias da região de Lagoa Santa. A revelação coube ao conterrâneo Peter Claussen, que explorava salitre na área. Os moradores locais atribuíam os ossos a homens pré-históricos gigantescos. Em 1835, Lund visitou as grutas Lapa Vermelha e Lapa Nova de Maquiné.

Lund morou e trabalhou mais de 40 anos em Lagoa Santa. Faleceu a 25 de maio de 1880, três semanas antes de completar 79 anos. Como Nereo Cecílo escreve em carta à família na Dinamarca, a última enfermidade durou cerca de dois meses. Ao fim, Lund delirava. “Dizia que o que ele mais amava eram as ciências e sobretudo a música,” Nereo relata. “Suas últimas palavras foram: amor, amor, amor.”

Peter Lund viveu na mesma casa até a morte. Nos fundos, construiu um barracão para preparação e estudo de fósseis. Protestante, não poderia ser enterrado no cemitério local.

Comprou um terreno que mandou “murar para enterrar meus amigos e a mim também”.

Ele determinou que queria ser sepultado à sombra de um pequizeiro – árvore típica do nosso cerrado – num local aprazível onde costumava estudar.

Também ali foram sepultados seus colaboradores Pedro Andreas Brandt, Guilherme Behrens e João Rodolfo Müller. Ao lado do túmulo, marcado por uma lápide de mármore negro, foi erguido um monumento a Lund e a Eugene Warning por iniciativa da Academia Mineira de Letras – hoje tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

“O fato de os restos mortais de Dr. Lund permanecerem aqui é muito importante, porque ele escolheu esta terra para viver, desenvolveu seus estudos, e, quando terminou a pesquisa, recebeu os pedidos insistentes da família para que retornasse à Dinamarca. Relutou e decidiu ficar. Assim, manter os restos mortais na cidade de Lagoa Santa é uma forma de não deixar que ele parta jamais” disse Rosângela Albano Silva, arqueóloga, coordenadora do Centro de Arqueologia Annette Laming Emperaire (Caale), vinculado à Prefeitura de Lagoa Santa.