Irmãs Argentinas: doçura, afeto e gentileza

Fomos visitar a Rota das Doceiras, na Lapinha, em Lagoa Santa. Passa numa casa, entra em outra… até chegarmos na porta de uma casa com um ipê branco bem próximo a ela. Já ali, via-se que era lugar de raridade e beleza.

Chamamos. E logo ouvimos um “Pode entrar!” que já enche a gente de alegria num genuíno “Sejam bem-vindas!”

Assim que chegamos, entrei e sentei na cozinha de lenha. Parei ali, olhando prá uma delas terminando o almoço depois de descer da horta, chinelo de dedo, saia de tergal, avental, lenço na cabeça, fala mansa e sorriso… De aquecer a alma. Gentil, me conta que tava fazendo o almoço: “Porque tenho que dar comida pro menino!”. Devo ter ficado ali ouvindo os casos uns 20 minutos que pareceram uma hora… ou décadas. Porque voltei na cozinha da minha avó. Cheiro de comida feita no fogão à lenha e com o melhor tempero do mundo: amor.

Enquanto ela fazia a comida, depois de ouvir os casos, rir e quase chorar, desci para ver a outra.

Descendo pelo passeio, lá embaixo, estava ela. Sentada com suas mãos já enrugadas pelo tempo, com uma bacia de laranja da terra. Ralando, limpando, colocando na água enquanto as outras ferventavam no tacho de cobre, no fogão baixinho de uma trempe grande só.

Ela me conta que gosta de fazer o doce assim: ferventa as laranjas, passa o ralinho fino prá tirar o sumo, deixa na água, ferventa de novo até sair o amargo todo, coloca na calda de açúcar por alguns dias. Mas tem o outro que tem que cozinhar, bater, colocar açúcar e mexer até dar o ponto de corte. Em meio a gargalhadas… “Dá um trabalho danado, mas eu gosto!” Me contou que gosta de morar ali também. E que gosta de deitar cedo. Às cinco e meia da tarde já estão deitadas, conversando, contando caso, até dar a hora do sono. Ali é bom estar. E viver ali é melhor ainda.

Ildaa que estava cozinhando pro menino e Alda – a que estava fazendo o doce de laranja, são as duas remanescentes das Irmãs Argentinas. Eram seis. Moravam todas lá, menos uma, a única que se casou, faleceu a pouco tempo e teve “o menino”.

O menino é Danilo. Homem feito, sobrinho amado, que cuida delas com zelo, amor e carinho. E é cuidado por elas com não menos do que isso.

Elas me contam que, quando meninas, moravam na Fazenda Samambaia onde aprenderam a maneira de fazer o doce e por lá viviam quase que isoladas, por muitos anos. “Talvez por isso não nos casamos!”

Iam e voltavam à pé quando deram de estudar, até que um dia o pai resolveu comprar a casa na Lapinha, essa que moram até hoje. “A casa era cheia, precisava ver!” Eram seis irmãs, o pai e a mãe que se chamava Argentina. Padre Francisco, um Pároco antigo lá da Lapinha, quando via a mãe com aquela penca de meninas chegando na igreja, para não correr o risco de errar os nomes, já falava “Lá vem as Argentinas…” e assim passaram a ser chamadas: As Irmãs Argentinas. Chamamento inclusive que elas sempre atenderam com gosto, pois acreditam estar homenageando a mãe.

Alda e Ilda tem mais de oito décadas, quase nove, cada uma. Produzem doce de figo, doce de leite seco com abacaxi, goiabada e laranjada divinos. A goiabada e a laranjada, sempre tem lá. Os outros é preciso encomendar. Mas ali naquele quintal, se produz uma vida doce. Diariamente regada com afeto, gentileza, amor, mineiridade e tradição.

Falar delas no dia Mundial da Gentileza é ter a certeza que o dito e repetido “gentileza gera gentileza” é a mais pura e genuína verdade. Saí de lá com o coração cheio de paz, daquela paz gentil, que elas transbordam no olhar!

Serviço:

Para entrar em contato e encomendar os doces das Irmãs Argentinas você deve fazer contato com o Receptivo Turístico da Lapinha. Falar com a Marta pelo tel.: 3688-1347

 

Por Narly Simões