Ceramistas Maria Quem Dera – arte, afeto e história em Fidalgo.

Antes de falar das “Marias Quem Dera” é preciso falar da Laila. E quando for falar delas, é preciso continuar falando da Laila. Laila Kierulff.

Na última lua cheia, fomos até Fidalgo, um distrito de Pedro Leopoldo, para acompanhar a “queima da lua cheia” das peças produzidas pelas Ceramistas Maria Quem Dera no último mês. Só aí, já é tanta beleza e tanta informação que vou contar por partes. Sobre a Maria Quem Dera, antiga moradora da região que o grupo escolheu homenagear, vou falar em outro dia. Uma história, no mínimo, intrigante e cheia de mistérios!

Já sobre o grupo e as peças e a queima e a lua… vou começar pela Laila com quem troquei assuntos e histórias por quase duas horas.

Laila é uma xícara inteira, bem cheia de delicadeza e afeto. É gente que gosta de gente. Natural de Belo Horizonte, neta de um chinês descendente de dinamarquês e de uma dinamarquesa, ela recebeu seu nome como homenagem a uma amiga dos seus avós: Laila Lund, que hoje mora na Dinamarca e de longe acompanha seu trabalho. Essa é só uma daquelas coincidências que a vida usa para nos apontar os caminhos.

Ela me conta que, depois de morar em vários lugares e ensinar seu ofício de ceramista seja na universidade ou em algumas comunidades e fazer parte do Grupo Gesto da UFMG, chegou ao Parque Estadual do Sumidouro a convite de uma arqueóloga que iniciou um projeto com a comunidade do entorno do Parque. Isso era meados de 2018.

Molda, amassa, reúne as pessoas… ela inicia o projeto com a ajuda da Marlene, proprietária do restaurante Neremas no emblemático 25 de janeiro de 2019. A Marlene foi o laço de alegria, afeto e mobilização para que cerca de quarenta pessoas iniciassem as aulas. De crianças a idosos, a turma estava lá, toda sexta-feira fazendo xícaras, queimando e trabalhando na terra uma forma de cerâmica primitiva. “E era lindo! A cerâmica é um ofício que é da simplicidade!” Ela me fala com um brilho nos olhos e um sorriso no rosto que dá gosto de ver. Sim, o ofício da simplicidade é lindo!

E aí, após alguns muitos tropeços no meio do caminho, dificuldades financeiras para tocar o projeto, mudança de lugar do ateliê algumas vezes – o que fez com que o grupo reduzisse drasticamente de tamanho, ajuda de várias pessoas… “Esse projeto une afeto de muita gente!” Laila decide se mudar de vez para Fidalgo e instalar lá seu ateliê.

Em Fidalgo surge então, sob orientação dela, o grupo das Ceramistas Maria Quem Dera com nove das remanescentes da turma inicial. O grupo é formado pela Ana Maria Viriato, Ení Basílio,  Eunice Eduardo, Ilma Pacheco, Marlene Trindade, Patrícia de Fátima Lima Souza, Roseli Fagundes, Terezinha Diniz,  Zélia Martins. Todas se auto denominam As Marias e Laila é a décima.

E aí a gente volta lá para aquela queima da lua cheia que começou logo depois do almoço e foi até “enquanto a lua estiver no alto do céu!” É trabalho, mas é diversão pura. É risada, é caso contado ao pé do ouvido, é coletividade, café coado, suco de caju com os segredos da Marlene, quitanda feita a várias mãos. É a beleza genuína da vida!

Essa queima acontece toda lua cheia. As peças produzidas por elas durante todo o mês – cada uma produz 10 xícaras e mais peças por encomenda – são levadas para a queima. Com a pandemia, as aulas com duração mínima de 3 horas que antes aconteciam às sextas-feiras, foram diluídas em três dias da semana, com três alunas em cada aula. No ateliê da Laila onde as aulas acontecem, elas aprendem e aperfeiçoam a técnica e produzem as suas peças nas suas casas. Levam para o ateliê e na lua cheia, queimam no forno “que cospe fogo prá todo lado!”

Atualmente, além das xícaras, elas estão produzindo alguns vasos e potes por encomenda para uma floricultura de Belo Horizonte.

As xícaras, cada uma exclusiva, original, assinada pela “Maria” que criou e datada com a lua em que foi queimada, podem ser adquiridas por encomenda (contato abaixo) ou no Achega Café em BH – mais uma daquelas muitas mãos que colaboram com as Marias, sendo um canal de vendas de suas peças e repassando 100% do valor a elas.

Saio deste encontro percebendo que o grupo das Ceramistas Maria Quem Dera, a Laila, a cerâmica, a história de vontade, garra e persistência dessas mulheres,  mostram como o afeto é o poder transformador de tudo. Pode transformar barro em arte, conhecidas em amigas, desconhecidos em parceiros, forasteiros em gente de casa, conhecimento em sabedoria, tempo em utilidade, profissão em missão, seriedade em gargalhadas sinceras, arte em xícaras. Uma xícara de que? Isso é mais uma linda história prá gente contar depois…

Se você quiser conhecer o ateliê, encomendar uma peça, comprar outra das muitas que estão prontas lá, basta entrar em contato: 

Telefone: 31 9 9982 4665

IG: @ceramistas_maria_quem_dera

 

Por Narly Simões