Euler Alves e sua arte de transformar a sucata

A região do Circuito das Grutas é riquíssima em arte e artesanato. Nosso universo artístico é vasto e gira em torno de músicos fantásticos, escritores e atores talentosos, artistas visuais e artesãos que utilizam das mais diversas técnicas para transmitir sentimentos, beleza e criatividade.

Hoje vamos falar do artista visual Euler Alves, natural de Caeté, que viveu muitos anos em Matozinhos e hoje tem seu ateliê na área rural do município de Capim Branco. Euler, que é autodidata, conta que iniciou seu trabalho de escultor nos anos 90 mas que a arte sempre esteve presente na sua vida desde a infância. Iniciou modelando barro e retorcendo arame na juventude de forma amadora, até que em 2000 começou a trabalhar profissionalmente e nunca mais parou. “Lá se vão 21 anos de transformação da sucata nas mais diferentes formas!”

Ele conta que sua maior fonte de busca de material e inspiração são os ferros velhos da região. “Quando eu chego no ferro velho, a primeira vez que olho só vejo sucata – e se ela continuar lá, vai ser só sucata mesmo – mas o tempo vai passando, eu olho de novo e já enxergo as formas que aquele pedaço de ferro pode tomar. Por isso gosto de ir sozinho e com tempo.” Euler fala da intenção de provocar uma reflexão nas pessoas através das suas obras. “O planeta está um caos, ambientalmente falando. É muito lixo gerado, muita coisa descartada que poderia ser reutilizada em um outro formato. É isso que tento fazer: transformar aquilo que é pesado, retorcido, descartado, em algo leve que desperte algum sentimento. Seja ele qual for.”

Um fato curioso que ele conta, é que já leu pelo menos duas vezes toda a história de Dom Quixote de La Mancha “São três tomos enormes e já li e reli todos”. Leu, releu, sabe detalhes sobre o cavaleiro errante e sempre gostou muito de retratá-lo em suas obras. Naturalmente, Dom Quixote se tornou o carro chefe das suas esculturas e ele tem releituras do personagem espalhadas por todo o Brasil. 

Ao olhar para o Euler até é possível identificar um certo ar Quixotesco em sua fisionomia: Cinquenta e poucos anos, esguio, de bigode e cavanhaque, sonhador, fala tranquila e risada fácil.

Ele conta que em um período da sua trajetória, se dedicou bastante ao tema , construindo e fazendo releituras de diversas imagens sacras como Nossa Senhora Aparecida, o que deu a ele a oportunidade de ser convidado a participar com seis releituras da imagem da santa, juntamente com outros artistas de todo o Brasil, da exposição “Aparecida 300 anos” no Centro de Arte Popular em Belo Horizonte, na ocasião da comemoração dos 300 anos de Nossa Senhora Aparecida.

Ainda com esse tema circulou por diversas cidades mineiras com a exposição “Fé – releitura de esperanças iguais” quando suas trinta obras possibilitavam esse recorte para uma reflexão sobre a importância da tolerância às diferenças em tempos atuais.

Além de Dom Quixotes, arte sacra e tantas outras obras espalhadas pelo mundo, Euler tem suas esculturas abrigadas em várias cidades da região do Circuito das Grutas. No Museu Histórico de Capim Branco estão três obras que retratam o Patrimônio Imaterial da cidade: O Alho, o Boi da Manta e a Flor do Capim. Todos em sucata e solda.

Em Confins está a Sagrada Família encomendada para ficar exposta sempre no Natal quando o município monta o presépio na praça central da cidade. Um São José de 2,20m, Nossa Senhora com 2 metros e o Menino Jesus na Manjedoura. Todas também produzidas exclusivamente com solda, sucata, força e afeto.

Em Jequitibá, pelas casas dos moradores vencedores dos Concursos Gastronômicos do Festival de Folclore estão nove troféus produzidos por ele para os anos de 2018, 2019 e 2020 além das placas de identificação do Patrimônio Histórico da cidade.

Um Peter Lund finalizado em 2019 aguarda a reabertura do Museu Peter Lund no Parque do Sumidouro – Lagoa Santa/ Pedro Leopoldo, para ir morar lá.

Ele conta com brilho nos olhos que para cada uma dessas obras estudou, pesquisou, fez, refez, até chegar no modelo final. Quando pergunto se tem algum auxiliar ou alguma ajuda, a resposta é que ele faz sozinho porque normalmente nem desenha as obras. “O desenho está mesmo só na minha cabeça.”

Andando pelo ateliê é possível ver outras obras expostas: um Boi da Manta de 1,5 de altura e outras que seguem uma linha mais abstrata porém sem perder a mineiridade, o talento e a força que o trabalho exige.

Euler com sua tranquilidade e talento, tem levado o nome de Capim Branco e do Circuito das Grutas para várias cidades mineiras expondo seu trabalho e falando sobre a importância da arte, do reuso de materiais, do olhar atento para o planeta e para o outro.

Ter a oportunidade de ver as obras de perto e conversar com ele sobre o material utilizado, a identidade da construção e criação de suas obras, traz uma esperança e um olhar novo sobre tantas possibilidades que o obvio pode nos trazer se nos permitirmos olhar para ele com mais sensibilidade e esperança. Aquela esperança, do verbo “esperançar” de Paulo Freire que nos inspira e nos mobiliza a seguir em frente ao invés de somente esperar!

Contatos do artista:

Telefone: 31 9 96371051

Instagram: @euleralvesartist

Facebook: /euleralvesartist

Fotos: Acervo pessoal do artista

Por Narly Simões